quinta-feira, 27 de março de 2008

SONHO VÃO


Em vão tentei agarrar-te
Sonho que me persegues.
Passando só de fugida
Não consigo que sejas mais
Que um sopro na minha vida.
Passando, não te deténs,
Olhando-me, não me vês.
Foges-me por entre os dedos
Até passares outra vez.
Não sei se não te mereço,
Ou se não sei conquistar-te.
Foges de mim quando passas
E em vão tentei agarrar-te.




Leonor Costa
Em 26.12.2007

segunda-feira, 17 de março de 2008

O MUNDO SOFRE

O mundo sofre.
Em cada rosto há uma ruga de inquietação,
Em cada olhar
Há uma sombra de melancolia,
Cada sorriso é um esgar de tristeza,
Cada lágrima
A conta dum rosário
De mistérios dolorosos.
O mundo sofre...
Sofre de sede de justiça,
De falta de amor, de fraternidade,
De paz, de compreensão.
Deseja tudo o que não tem,
E sofre, e chora
Porque o mundo
Também tem um coração!

Leonor Costa

Em 1970



domingo, 9 de março de 2008

UTOPIA


Dar largas ao pensamento e à fantasia,
Imaginando a vida um sonho belo e sem fim
Onde a finalidade de cada dia
Fosse eu viver para ti e tu para mim.

Saciar a sede num raio de luar,
Alimentar-me de beijos e abraços
E, quando fatigada, ir repousar
No ninho aconchegado dos teus braços.

Esquecer maldades e vãos ideais,
Viver do amor e para o amor somente
Esquecendo deste mundo o desengano.

Do meu sonho belo não despertar jamais
E embalada no teu peito, ternamente,
Deixar passar o tempo, ano após ano...

Leonor Costa
05.05.1970

domingo, 2 de março de 2008

UMA SOPA duas VIDAS



  • Envelheci. O tempo teceu como rendas as rugas que já marcam o meu rosto e a neve poisou sobre a minha cabeça cobrindo-a com um véu branco. Os braços, que embalaram os filhos, já não têm o mesmo vigor mas as minhas mãos, aquecidas pelo calor deste caldo partilhado contigo, com alguma tremura acariciam o teu rosto. Os meus olhos, que já não são o que foram antes, ainda te olham, embevecidos, e cintilam abrasados pelo calor da tua presença pois tu serás sempre o meu "menino".
    Deitando um olhar de relance à minha vida vejo um caminho percorrido com grandes provações mas, com a força que Deus me deu, hoje ainda estou aqui. Tenho casa, tenho esta sopa ,que muitos mendigam, e que eu ainda faço com as minhas próprias mãos. O coração, esse está cheio de amor para dar.
    Envelheci. Mas só por fora. Por dentro ainda acalento a criança que há em mim. Vou do riso à lágrima, conforme me tocam o coração. Remo muitas vezes contra a maré e luto contra o desalento que teima em bater-me à porta, querendo entrar.
    Espero ter forças para terminar a "caminhada".
    Estou viva!
    ***********
    Este texto foi escrito em 23.12.05, em resposta ao desafio do TóZé, do blog acima mencionado, e dedicado ao meu filho Luís Filipe. Quis partilhá-lo convosco. Espero que gostem.